domingo, 11 de julho de 2010

DEUSA-LUA



Quando escutei "labirinto", imediatamente me veio a lembrança da mitologia grega. Gosto de história e de lendas. Ouvi a palavra e lembrei-me do minotauro preso no labirinto de Creta, e do sacrifício dos sete rapazes e das sete moças virgens. E de como Teseu, com sua espada, com apenas um golpe, matou o bicho enfurecido. E depois o novelo de lã dado por Ariadne, uma idéia simples que permitiu ao herói encontrar a saída.

Penso que às vezes a gente tem que seguir no labirinto dos sentimentos e procurar saídas. Os minotauros da vida diária são os monstros que a sociedade cria para nos assustar. Cabe a nós matá-los para nos libertar. O novelo de lã são as teias que a gente lança para cobrir o caminho. E se, no fim, encontramos um amor - mesmo que momentâneo - valeu o sacrifício da busca.

Na mitologia, Baco toma vinho, Eros ama e tantos deuses seguem o destino por ela traçado. Na vida real, às vezes o homem ama e se perde no labirinto do seu coração. A mulher tenta lhe mostrar o caminho, mas ele nem sempre consegue encontrar o rumo. Ou então foge com medo e receio disso que chamamos de envolvimento.

O labirinto é onde vivemos, onde as palavras que não foram ditas estão aprisionadas. Vivo essa sede de desejo que me consome e me faz sempre viver uma busca incessante não sei de quê, uma procura de não sei por quem.

Preciso me perder no labirinto, para que lá meu corpo encontre um momento de êxtase. Não sei viver sem fantasia, sem uma vela acesa, sem uma música de fundo, sem o toque de uma pessoa amada.

Gosto de imaginar que, ao fechar os olhos, ele pode sentir minha pele, meu cheiro, minha boca, minha voz de menina, meu calor. Que ele sinta um arrepio com o meu roçar em seu peito. Que ele saiba como é se consumir de desejo e morrer de amor.

E que ele não se perca de mim, pois não tem coisa melhor do que encontrar alguém pra se gostar. Não preciso dar voltas pra falar, as palavras não necessitam de floreados ou de rebuscamento para serem sentidas. Se eu falo "te amo", isso é simples, direto e de coração.

Quero viver na mitologia e ser uma deusa-lua, e que, quando meu amado olhar o céu, possa me ver ali, branca e majestosa.

SILÊNCIO SEPULCRAL



Foram enterrados vivos. A única forma possível de encontro amoroso. Palavras soltas: clandestino, subterrâneo, sepulcro, morto-vivo. O roçar da pele e aos poucos foram ganhando vida. Véu de pele. A única textura capaz de se regenerar. Um olhar abrindo lentamente - olhos nos olhos. Nessa hora, imagética ou fonética não teriam importância. Não podiam falar. Silentes e ausentes do mundo real. Passageiros da eternidade. Não tinham mais relógios e nem cobranças. As lembranças também eram fugidias. Confronto amoroso. A vida sinuosa presa nas curvas do corpo humano.

O momento era de sensações - mãos e corpos. O passeio das mãos começou roçando a ponta dos dedos. Sopro nos ouvidos, arrepios e calafrios. O corpo feminino foi adquirindo cor e calor. A pele foi tomando de assalto o róseo da luz que entrava pela fresta. Ela molhada com o visgo do orvalho da intenção. Ele com as mãos afundadas no jardim das delícias. Dois seres nus e desprovidos de história. Corpo e alma finalmente se encontravam. A alma nua e a cópula crua. As mãos percorrendo os pêlos. Sedosa sedução. O mundo era um novelo. Tudo se enlaçava. E ali estavam eles por vontade própria de morrer no gozo da vida eterna. Um sopro de vida, o sangue bombeando. A vida voltando.

A cerca viva de flores, o cheiro de rosas, as velas, e ainda o cálice de vinho. Santo sepulcro do prazer. Pouca luz e nada de abstinência e nem penitência. A luxuria desenfreada do desejo. Ele com mãos percorrendo as maiores distâncias no quadrifólio amoroso - seios, nádegas, nuca e boca. Ela - com mãos tão delicadas, pequenas pérolas rolando sobre a pele de especiarias dele, com cheiro de pimenta, puro ardor. A labareda, os corpos foram ficando em chamas - pequeno incêndio sexual. Nada de palavras. Amar é silencioso. E as mãos que não paravam, as carícias, a total ausência de malícia. Pureza de intenções. Clarões - a vida em folguedos. O vinho rubro da vontade e das provocações. A boca sentindo o hálito, o encontro de línguas sem voz. A língua se contorcendo trêmula - o prazer molhado da saliva. Ele foi girando e virando redemoinho dentro dela. Ela imersa de prazer, arrepios breves, gemidos leves. E nada de palavras. Falar o quê, se as sensações respondiam na linguagem corporal? A ausência de vocábulos e os movimentos cíclicos. Suor, sêmen, pólen, flor entreaberta. Mundo surrealista de hemoglobinas e morfinas. Morte e vida juntas. A poética e a dialética envolvidas num manto silencioso.

O prenúncio da morte provocou o encontro. A vida, o desencontro. Amar sempre seria uma pequena morte. Falta de respiração e conflitante emoção. Ela nunca conseguiu pronunciar uma única sílaba diante dele e nem poderia. Surda-muda de nascimento. Ele sempre ouvidos para escutar a sua ausência de sons. Diferentes vidas, mortes iguais. A placa dizia "Aqui jaz um casal que se amou na vida e na morte." E o resto era um silêncio sepulcral.

A ARTE DE EMBALSAMAR


Enildo tomou um bisturi novo, fez outro corte no plexo do cadáver e espalhou um pouco de natrum com a espátula fina. Manejando a pinça com algodão, limpou o excesso de líquido e disfarçou o corte. Tinha-lhe parecido que aquela parte não estava bem conservada; sentia o leve cheiro conhecido. Fez a última aplicação de bálsamo e contemplou o trabalho. Estava perfeito. Apesar da antipatia de Honorina, chamou-a para ver a embalsamação.
Vinham raros corpos hoje em dia. Acidentes graves com pessoas queridas (embora bastasse a tantas famílias manter o esquife cerrado). Gente importante, cujo tempo de velório seria longo. Estrangeiros que devessem partir para lugares distantes. Ou casos de grande amor, de capricho final.
Era o corpo de uma mulher madura. Enildo lhe arranjou os cabelos ainda fartos, lavando-os e aplicando a tintura castanho-escura. Desmanchou-lhe o ricto da boca, que agora estava tranqüila e natural, esboçando quase um sorriso. Pelos lábios entreabertos apareciam os incisivos brilhantes. Pequenas rugas aos cantos dos olhos foram eliminadas. O rosto recebeu uma maquiagem discreta. O queixo erguido conferia um ar de nobreza, de autoconfiança. As pernas foram depiladas, as mãos tratadas, as unhas polidas.
Honorina examinou todo o corpo e balançou a cabeça, aprovadoramente. Quando parecia satisfeita com a inspeção, apontou com movimento fugidio o antebraço esquerdo. Havia uma estreita mancha, quase invisível, que ia morrer sob o cotovelo. Tornou a balançar a cabeça - e esse gesto ambíguo tanto podia desculpar a falha de Enildo como lhe desferir mortal ironia.
Voltando as costas ao cadáver, Honorina foi para seu armário. Continuou a arrumação dos frascos, dos cadinhos, das espátulas. Conferiu o garrafão de natrum e sopesou as cubas de benjoim, de alfazema, dos demais pós aromáticos. Recontou os estiletes no escaninho. Encontrou ali o ofício da Direção Geral e o releu.
"... data em que Vossa Senhoria deverá ser aposentada compulsoriamente do cargo que tão competentemente vem exercendo há mais de cinqüenta anos com denodado esforço e extrema dedicação, pelo que..."
Tremeu de ódio. Lançou o olhar até Enildo, que curvado sobre o antebraço do cadáver voltara a trabalhar.
"... e ao mesmo tempo esse laboratório será desativado, devendo Vossa Senhoria fazer a entrega das chaves e demais pertences..."
Sabia que o colega recebera idêntico comunicado, mas nada lhe confiara. Completavam o mesmo tempo de serviço e tinham a mesma idade; haviam começado a trabalhar juntos. Nunca faltaram um dia sequer e desprezaram ambos as férias, as licenças-prêmio. Estavam empatados, também, com o mesmo número de corpos embalsamados.
"Nunca. Sou a melhor. Só saio com mais serviço. Cachorros." Pensava nos anos todos em que suplantara Enildo na perfeição dos trabalhos. Uma espuma branca começou a escorrer-lhe pelo canto da boca e um esgar lhe contraiu as feições.
Foi despertada de suas lembranças pelos movimentos de Josué, o servente. O rapaz era a única fonte de som no laboratório. Gostava de cantarolar, mas emudecia ao receber a reprimenda de Honorina. Procurava conversar com Enildo - e logo desanimava, ante os monossílabos contrafeitos do velho. Sentado à mesa outrora branca, Josué começou a ler o jornal. Mosquitos zumbiam-lhe em torno do nariz, e ele os espantava com vigorosas patadas no ar.
Honorina escolheu uns potes e instrumentos, e fechou a portinhola do armário com um golpe da mão. Foi até o congelador, na outra extremidade do laboratório, retirou uma perna e a colocou sobre a mesa de mármore. O membro, serrado acima dos maléolos e abaixo do joelho, era magro, longo e estreito. Há tempos que Honorina o manuseava, entregue à sua experiência: combinando o carbonato de sódio com outros compostos, criara uma substância nova a que chamou de honoratrum. Sua ação permitia conservar tenra a peça embalsamada, com a pigmentação natural e o colorido vivo. Escondia de Enildo a descoberta. Quando Josué, sem pensar, aproximava-se da mesa, recebia um rosnado violento e um olhar feroz. O rapaz fugia, apavorado.
Com uma seringa, Honorina aplicava o fluido em pequenas partes da musculatura e espalhava depois os manipulados em pó. Tombou de sua mão a espátula, ela explodiu um impropério. Josué levantou e veio, pressuroso; ela atirou-lhe com toda a força um pote de pedra, que foi se estilhaçar na parede azulejada. O cheiro de tomilho inundou o laboratório mergulhado em ódio e terror.
Ao fim do expediente, veio o carro apanhar a embalsamada. Enildo fez a entrega, recolheu os papéis do recibo em sua gaveta e saiu. A noite caíra. Josué despediu-se e seguiu Enildo porta afora. Honorina sentou numa cadeira e contemplou as próprias mãos quase mumificadas pela alquimia de seu ofício. Ficou a olhar esgazeada o espaço.
Quando a madrugada passou, a mesa de mármore estava lavada, tendo ao lado o carrinho com a caixa de instrumentos, os potes, os frascos, os boiões de algodão e gaze. Arrumar tudo era serviço habitual de Josué, quando havia serviço. "Mas hoje está dispensado", calculou Honorina, que se colocou junto da porta com a tranca de ferro na mão. "Hoje eu vou dispensá-lo. Para sempre" - e as rugas de seu rosto se moveram numa imitação de sorriso. Abafou um pigarro e apertou a barra de ferro, ao imaginar passos do outro lado da porta, mas ninguém apareceu. Esperou paciente as horas. imagens começaram a voltar de um passado morto.
"Meu primeiro serviço foi também um jovem. Eu chorei no princípio, de boba. Mas arrumei os ossinhos quebrados do rosto, costurei os lábios. O nariz todo acabado no acidente, tive de refazer com um pedaço tirado da coxa. A carne era tão branquinha."
Cenas aconteciam-lhe na memória, como um filme cinzento. Lembrou um caso em que tinha sido difícil emendar o crânio, partido em dois hemisférios. Resolveu ter cuidado para não golpear Josué com muita força.
"Depois recebi serviços de todas as idades. Meu pai foi Enildo quem fez. Em troca, eu fiz o pai e a mãe dele. Aos poucos, perdi todos os melindres. Quantos anos já! Vamos ficando endurecidos, sem emoção... Acho que o natrum penetra na pele e na alma da gente".
Trabalhando juntos, Honorina e Enildo disputavam e eram requestados. Os melhores do mundo, havia quem dissesse. Certa vez vieram buscá-los para um serviço especial. Queriam esconder marcas de tortura, Honorina logo percebeu. "Enildo aceitou, de covarde. Eu expulsei aos empurrões o sujeito fardado."
Estranhou a ausência de Josué, sendo tão tarde. Descurou a espreita da porta e foi olhar as substâncias. Cheirou os bálsamos e testou, rilhando os dedos um contra o outro, a consistência dos líquidos. Tudo estava pronto. Havia um galão de honoratrum como que presidindo os outros objetos. Nunca mais a antiga rigidez, pensou, aquela mumificação, a cor cerácea. Com o derradeiro serviço, iria coroar de glória toda a sua vida. "O rapaz vai ficar bonito".
Ouviu um rumor na maçaneta e voltou, apressando os passos. Ao tocar na porta, esta se abriu e o vigilante da manhã meteu a cabeça: "Veio trabalhar no feriado, dona Honorina?"
Parou, abismada. Fez um sinal, despachando o homem, e trancou a porta. "Feriado. Como fui esquecer? Agora não há mais tempo. Amanhã estarei aposentada, o laboratório extinto, não vão sequer me deixar entrar". Sentou na cadeira e prendeu a cabeça entre as mãos.
A claridade da manhã atravessava as altas janelas e brilhava nos vidros, nos metais. Uma réstia de luz disparada desde o céu apontava os instrumentos ao lado da mesa. Todo o cenário tinha um ar digno, como se o laboratório estivesse transfigurado para receber um ritual solene. Honorina ergueu os olhos e abarcou o recanto em que costumava trabalhar, até então humilde e simples - parecia agora uma capela-mor, onde o mármore da mesa se elevava como um crisol sagrado.
Fez a última revisão.
Libertou-se das roupas e foi para a mesa, alçando-se devagar, em movimentos prudentes. Certificou-se de que podia alcançar os instrumentos, os potes.
Começou pelos pés. As primeiras incisões foram mais dolorosas do que esperava, circundando os calcanhares, subindo no rumo das panturrilhas. Aplicando o pó de alúmen, estancava os filetes que teimavam em brotar. Logo, uma dor mais viva, surgida pela injeção dos líquidos, fazia esquecer a lancinante pontada dos cortes. Quando terminou com as pernas, Honorina teve forças para sorrir, ao perceber que já não doíam. Terminou devagar com o ventre, que se rebelava, em espasmos. Chegada a vez do sexo, hesitou, quase cedeu à tentação de abandonar tudo. A dor fazia-a apertar os maxilares até quase despedaçar os dentes; mas venceu, e a embalsamação continuou.
"Devia ter preparado mais honoratrum, a consistência é leve, é mais volátil. Onde está o diabo da cânfora?"
Estirada na mesa, Honorina testou a própria maciez, experimentou o deslizar dos bálsamos na pele, avaliou a nova trama de seus tecidos. Nunca mais as rugas, cotovelos coriáceos, queixo áspero. Construía sua juventude passo a passo. Sentiu, como nunca ninguém havia sentido, o orgulho de se fazer eterna. Contemplou a própria imortalidade desde um ponto situado muito antes: havia recuado no tempo para se imobilizar, e de lá retornava jovem, elástica, bonita. "Enildo vai me convidar para sair". Levantou a cabeça e procurou olhar-se como num espelho nas vidraças do armário. O pêndulo do relógio ritmava mais alegre na solidão do laboratório.
O braço esquerdo já pronto repousou sobre o ventre. A mão se abandonou ali, numa curva graciosa. Ocorreu-lhe o problema de entrelaçar as mãos, na postura clássica, quando acabasse o serviço. Riu ainda.
Feito o trabalho dos seios, eles se elevaram rijos, os mamilos se destacando róseos, coroando a curvatura sensual. Com uma bandagem embebida em alfazema, perfumou-os, acariciando-os devagar, lembrando um tempo distante. "Enildo era um meninote muito tímido, encarava meus seios estufando a blusinha de cambraia e engolia em seco, desviando os olhos".
Sentiu fortes pontadas nas têmporas. Aconteceu uma vertigem e passou. Teve um tremor quando encheu a seringa e tateou-se em busca das carótidas. Injetou lentamente, sentindo um riacho de fogo romper as artérias. Um descomunal sino de bronze começou a tocar na noite, e suas batidas eram pulsações de luz que percutiam nas retinas. "Com muito prazer", pensou. "Aceitaria jantar com você".
Rosas amarelas se destacaram do teto e vieram desfolhar-se na mesa. Uma névoa adensou-se, mãos lentas afagaram seus cabelos, estrelas dançavam pela sala e explodiam em seu rosto com estalidos de beijos. A convulsão de seu corpo era como um bonde atravessando desvios de trilhos em subúrbios arruinados. Sentada no banco de pinho-de-riga, uma menina via deslizarem poças enlameadas de chuva e tinha medo de morrer. De repente o sino emudeceu, o tremor acabou, o rumor do pêndulo ocupou o silêncio do laboratório.
Honorina soltou a seringa, que rolou sobre seu colo, escorregou pela mesa e caiu no chão.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

ESPECTRO


Não era o brilho da lua que roubava minha atenção.
Eram teus olhos, faróis iluminando meu espectro,
subjugando minha alma.
Nem era o uivo do lobo que fazia meu corpo arrepiar.
Era sim tua voz em sussurro pronunciando meu nome.
Foi assim o nosso começo, o tudo que não aconteceu,
o nosso fim. Fim?
Que nunca chega, paixão que nunca termina,
Sem ao menos ter começado.
Atração irresistível, que não cessa
e que não deixa espaço para paz.
Se te penso, sinto ainda todos meus elétrons desorbitarem.
Sossego? Apenas quando se juntam aos teus.
Se não te penso, como não te pensar?
Ah... Esta distância que não existe este tempo que não passou.
O amor, que nunca aconteceu, é a paixão que me mantém viva.
Porque teimas em se fazer pesadelo nas minhas noites (que não são tuas)?
Porque te fazes tão presente? Se nem sei se existes.
Meu coração entra em descompasso cada vez que ouso pensar teu nome.
Persegues-me como um fantasma, como um demônio.
Ou seria um anjo tentando me mostrar um caminho de salvação.

Não sei dos teus caminhos,
nem sei dos teus amores,
não faz diferença.

Sei de mim, doidivanas,
que ainda te sente,
te abraça e te espera.


domingo, 27 de junho de 2010

O talismã


Sobre a cama desfeita deixou o antigo pingente, onde um dia se encontravam quatro pequenas luas. Hoje restava apenas uma, a negra, a nova que incoerentemente não representava o novo, o reinício e sim o fim, talvez por isso negra...
...julho corria tranqüilo e frio, o silêncio da noite era quebrado apenas quando as ondas arrebentavam ultrapassando o quebra-mar, fato comum nas noites de lua plena e ao atingirem seu clímax com um enorme estrondo, costumavam causar medo. Apreciar aquele momento do alto do penhasco era o melhor que se podia fazer antes de se romper definitivamente com o passado. Ao longo daqueles dez anos pouco havia mudado naquele cenário, as luzes distantes da cidade à sudeste e a esquerda a pequena vila de pescadores hoje quase extinta. Minha alma voltou aos dias em que a vida não era nada mais senão riso e brincadeira, férias eternas, entre a pequena aldeia e o imponente chalé do alto da Escarpa Carmim, como era chamada a falésia que se erguia majestosa há poucos quilômetros da vila. Agora a visão da casa não passava de um fantasma que tentava desesperadamente se manter erguido, tentando inutilmente escapar do tombo fatal e ali também morreriam todas as recordações que agora a faziam sofrer.
Tudo havia começado com o pequeno talismã e tudo terminaria com ele. Por 10 anos viveram tudo que poderia ser vivido e fizeram tudo o que poderia ser feito para eternizarem a felicidade, onde destino era traçado, onde as paixões eram vividas, onde não se esperava por nada nem por ninguém. A vida era assim sem cobranças, sem traumas, sem medos, sem pecados. A vida era vivida e vívida, como costumavam dizer.
A única regra: a verdade, fosse ela qual fosse.
Daí o talismã, um pingente, quatro luas, quatro fases, quatro vidas uma para cada lua, unidas pelo amor e pela verdade.
A primeira lua se foi quando Ana se apaixonou, foi-se a lua cheia, Raquel que um dia foi crescente trocou com Maria, pois queria ser minguante para morrer, mas longe dali sobreviveu. Maria me jurou amor eterno, fosse a sua lua qual fosse, mas ao receber a lua crescente desejou que lhe crescesse o ventre como a lua que tinha no peito, para isso outro amor e o ventre livre para conceber. Assim fiquei nova e só, revivendo todas as fases que agora só a mim pertenciam e que minhas lembranças faziam sempre se renovar. A pouco, soube que minha Maria, meu bem querer e todo o seu brilho crescente também se foi. De seu ventre outra Maria brilhou, mas o destino impiedoso em troca a levou. Assim de nova me fiz Lilith. Nada me resta senão abandonar vida, me entregando a noite fria, a fase negra onde nada existe, onde nada temerei, onde a saudade não existe e o amor perecerá para sempre. Na cama o último sonho de amor, o último fantasma, a última gota de perfume e última lágrima de saudade, a última esperança do retorno. Em algumas semanas sentiriam minha falta. Na casa encontrariam uma cama desfeita, uma foto em preto e branco rasgada e um pingente onde uma lua nova jazia sozinha. Talvez procurem por mim, talvez não, afinal sempre dizia qualquer lua dessas partirei também...
Sobre a cama desfeita deixou o antigo pingente, onde um dia se encontravam quatro pequenas luas, quatro vidas, quatro amores, restou apenas uma - a negra.
Na pequena vila de pescadores corre a lenda de que aquela que não aceitou a verdade e se matou por amor, vaga errante através das falésias nas noites de lua nova a espera de sua Maria.

A dança


Eu adorava dançar com ele, era algo diferente. Se bem que eu nunca soube dançar direito e por isso não tive muitas experiências na área, mas com ele sempre foi diferente. Sentia-me bem e talvez por isso até conseguisse enganar ou realmente dançar bem.
Sentir seu corpo junto ao meu em um ritmo qualquer, o clima sensual nos envolvendo. Cada movimento sincronizado, a música nos envolvendo como lençóis em que não prestamos atenção mas sentimos a presença suave, somente compondo a cena. Nossos corpos suando levemente pelo movimento e pela proximidade do calor do outro. A textura da pele sentida através de leves toques das mãos nas costas, dos rostos colados, das mãos juntas. O cheiro dele me fazendo quase esquecer de onde estou, suas pernas tocando as minhas, envolvendo, sua boca na minha, passando pelo meu pescoço. Suas mãos segurando meus ombros com força, as minhas apertando seu corpo, acariciando suas costas, minha boca em sua orelha, beijando, mordendo, lambendo.
Sua respiração ofegante se confundindo com a música no meu ouvido, mudando meu ritmo e fazendo ele mudar o dele também. Sinto o cheiro do seu cabelo, o sinto entre meus dedos, seguro, puxo. Suas pernas se enroscando nas minhas, sua pele alva e macia me deixando excitada, as unhas nas minhas costas, o suor se intensificando, o ritmo se alterando, se acelerando. A música se tornando orgânica, ofegante, gemidos, sussurros, beijos mordidas.
Pareço sentir sua boca em todo meu corpo, suas mãos me tocando por inteira e eu sinto seu corpo como se estivéssemos nus, sinto seu gosto, a dança nos move como se fôssemos um só, parece que podemos nos sentir por dentro um do outro.
A dança com ele atinge um auge como um orgasmo e eu nem sei mais se consigo ouvir uma música no fundo. Subitamente, desmaio em devaneios e fico entorpecida nas lembranças.

Fronteiras do desconhecido


Longe vai o tempo das praças com coreto ladeando a igreja e fervilhando gente nas noites de sábado, depois da missa e do sermão, onde todos, irmãos, afluem à praça para jogar conversa fora, sem demora afinal, a semana fora longa, trabalhosa e as novidades jorram como o líquido precioso num olho d'água.
As carroças rudes rodeiam a praça fazendo zoeira com suas rodas e as ferraduras dos cavalos sobre os paralelepípedos e nelas seguem o rumo a gente simples que na madrugada já calejam as mãos nas enxadas.
O que restam são as charretes bem pintadas com seus condutores alinhados, prontos para levar os mais nobres a seus magníficos solares.
Damas bem vestidas e enchapeladas desfilam de braços dados para mostrar seus trajes importados, sedas chinesas e sapatos italianos.
O tempo nem se importa com a escrita!... As noites estreladas foram tantas... Nasceram tantos meninos e meninas e com eles muitos folguedos resistiram por décadas.
Os antigos casarões com seus balcões e lanternas fumegantes foram sumindo, dando lugar a arquiteturas modernas. Até a igreja passou por reformas e o padre já é outro também. O coreto tentou resistir até se impregnar de ferrugem e dar lugar a mais espaço.
Já não se vêem carroças e nem charretes. Os carros disputam uma vaga e a praça é uma festa de som insuportável regado por bebidas, palavras sem nexo e cenas desconexas, sem um sentido, sem um propósito.
Dos poucos casarões antigos que resistiram, o de dona Mariana é ainda imponente, mesmo com a pintura desgastada. Mantém seus janelões panorâmicos, seu enorme portão de entrada, lanternas ainda ativas e uma escadaria com acesso à varanda do andar superior, ponto estratégico de onde várias gerações puderam admirar aquelas noites quentes, estreladas e agitadas pela multidão naqueles encontros semanais.
Dona Mariana ainda fica na varanda bem quietinha, atenta aos movimentos modernos e dando seus pontos precisos de crochê sem precisar olhar para a agulha.
Subitamente as escadarias perdem o silêncio e pouco a pouco seus netos vão chegando para um rápido paparico. É sempre assim, uma beijoquinha, um pedido de benção e lá vão eles para o grande burburio da praça.
Mas hoje dona Mariana está decidida há mudar um pouco a rotina e os faz permanecer por mais tempo, só para contar um pouco mais daqueles tempos em que sua juventude era regada a esporádicos passeios pela praça e quando cada passo era devidamente vigiado pelos mais velhos.
Ela então diz aos netos:
-Sintam! Sintam o aroma desse perfume de dama da noite!
Um deles argumenta:
-Vovó, que cheiro horrível! A senhora chama isso de perfume?
Ela sorri!
-Verdade meu neto. Não é lá tão agradável, mas tem em sua essência um tanto de recordações. Quando vocês envelhecerem certamente que vão identificar aromas que também vão avivar suas lembranças.
Então ela aponta para um canto da praça e diz:
- Lá, na ponta da direita da igreja, naqueles tempos em que eu tinha uns 14 anos, sempre aparecia uma mulher com uma sombrinha cor-de-rosa, bem vestida, lábios vistosos por um batom vermelho e um rosto tão angelical que nos deixava ansiosas para ter mais idade. Minha mãe ralhava comigo e com minhas irmãs quando falávamos da mulher misteriosa que surgia do nada no canto da praça e lá ficava observando a multidão. Não entendíamos as razões, porque éramos puras, inocentes e ao nosso redor a vida era simplesmente viver. Não aconteciam crimes, a não ser vez ou outra em que alguém brigava por ali, mas eram contidos rapidamente. Havia respeito, havia horário para tudo e qualquer coisa diferente que observávamos era de imediato questionada e na maioria das vezes proibida de se falar. Verdade que na medida em que a idade avançava, descobríamos coisas novas, que se tornavam segredos perigosos. Na praça existiam outras árvores como essa e o cheiro da flor era muito mais forte. Impregnava o ar e acredito até que era responsável pelo sono mais rápido, pois num instante olhávamos a multidão na praça e no outro, acordávamos com os galos cacarejando pela redondeza. Um dia, a curiosidade não me impediu de fazer a descoberta maior e num descuido dos meus pais, me enfiei na multidão, rápida como um gato assustado e consegui chegar bem perto daquela linda mulher. Parei estática à sua frente, sem dizer uma só palavra. Olhei o seu rosto, os seus lábios, os seus olhos, os cabelos, a roupa. Ela também me observou dos pés à cabeça e abriu um sorriso tão lindo que jamais eu poderia esquecer. Voltei rápido para casa como se nada tivesse acontecido. Algum tempo depois, os sinos da igreja dobraram no meio de uma tarde e havia uma grande confusão na praça. Sabia que alguém havia falecido e quando isto acontecia a noticia chegava rapidamente. Naquele dia ninguém tocava no assunto, mas lá na praça, homens e mulheres iam chegando e o burburinho aumentava. O que sei é que repentinamente todos entraram na igreja e pouco depois fomos todos para lá também. Havia um silêncio profundo e no altar o padre fazia sua reza em latim. No caixão havia uma mulher, mas não deixavam à gente ver quem era e ninguém ao menos dizia o nome ou o parentesco. Então o padre apenas olhou para todos e disse que aquela era a casa do Senhor e que todos independentes dos seus pecados tinham o direito de receber ali suas bênçãos. O caixão foi carregado pela nave da igreja até a carruagem funerária que esperava na porta. Quatro desconhecidos carregavam o caixão e dali em diante, a carruagem partiu sem que ninguém a seguisse até o cemitério como era o costume. Perguntas em casa não faltaram e respostas jamais foram concedidas. Passei um bom tempo tentando descobrir quem teria sido a falecida tão desprezada. Uma noite, como aquelas tão tradicionais, reparei que a mulher que sempre surgia na ponta da praça não havia aparecido e foi então que fiz meu comentário e desta vez não puderam esconder a verdade. Tinha sido ela a falecida desprezada, que morrera por causa de uma pneumonia. Então eu soube que ela era uma das moças do bordel que ficava distante da cidade e que era denominada sutilmente por "dama da noite".
Já bocejando, dona Mariana queria seguir com sua história, mas os netos começaram a cantarolar, a fazer uma boa farra e lá se foram rindo muito com o causo da vovó.
Dona Mariana dormiu ali mesmo em sua velha cadeira de balanço e em seus sonhos regados pelas recordações, a bela mulher de outrora ressurgiu imponente, com o mesmo sorriso nos lábios, com a mesma pele aveludada dizendo a ela:
- Olá Mariana! Está uma noite muito linda, o perfume toma conta do ar, as histórias seguirão sendo escritas nos livros da vida e nós, vamos agora juntas para uma nova aventura pelas fronteiras do desconhecido.
Na manhã seguinte, os sinos da igreja dobraram fúnebres pelo cortejo de pessoas conhecidas, outras desconhecidas e familiares que acompanhavam o caixão de dona Mariana.